segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Como Comprar? Frank Zappa




A obra de Frank Zappa é um buraco sem fundo que sempre estamos dispostos a mergulhar. São mais de 60 lançamentos oficiais, fora as coletâneas, discos ao vivo, bootlegs, dvds, boxes, o que torna sua carreira um objeto de estudo para muitos fanáticos, inclusive para este que vos fala. O problema que surge diante da extensa discografia é por onde começar. Diante de tal questão, resolvi propor um guia de compras incluindo discos de estúdio e ao vivo que são essenciais para aqueles que queiram se aventurar pela vasta obra do gênio. Primeiramente, pensei em escolher cinco clássicos, mas vi que era impossível. Decidi então pinçar dez discos e ainda assim deixei de fora álbuns que considero marcantes em sua carreira, cogitando um top 20, mas como é um guia para iniciantes, aqui vão os dez mais, em ordem cronológica, para quem se interessar por Zappa:



Freak Out! (1966)

Inovador em tudo que o engloba, o primeiro disco do Mothers Of Invention é uma demonstração de atitude acima de tudo! Quem mais teria coragem de lançar um disco de estreia duplo e conceitual em 1966? Suas letras giravam em torno de uma crítica bem humorada à cultura e política norte-americana da época, mas ainda soa atual. Paul McCartney disse certa vez que Sgt. Peppers era o Freak Out! dos Beatles, sendo sua maior inspiração musical.



We`re Only In It For The Money (1968)

Zappa não estava nem aí para o que os Beatles pensavam sobre sua música, tanto que os satirizou logo na capa deste genial álbum de 1968. Por meio de um rock experimental, os Mothers tiraram sarro da cultura flower power, apologia às drogas (por mais estranho que pareça, Zappa sempre foi careta), Beatles, alienação juvenil e tudo que envolvia aquela geração de hippies. Frank ligou para McCartney pedindo autorização para fazer uma paródia de Sgt. Peppers na capa do novo LP. O Beatle disse que esse era um problema que os empresários deveriam resolver, o que enfureceu Zappa, respondendo que o artista é quem deve dizer aos empresários o que fazer. Temendo um processo judicial, a solução encontrada foi inverter a capa, colocando-a do lado de dentro com o encarte do lado de fora.



Hot Rats (1969)

Disco solo gravado após a dissolução do Mothers Of Invention, é praticamente instrumental (Captain Beefheart faz uma pequena aparição em Willie the Pimp). Voltado para o Jazz-Rock, marcou início de uma nova fase em sua carreira, distanciando-se da sonoridade dos primeiros álbuns e o colocando no mundo dos virtuosos.



The Grand Wazoo (1972)

Gravado com uma banda gigantesca, sua sonoridade poderia ser classificada como um Jazz-Rock interpretado por uma big band. De certa forma, representa uma evolução de Hot Rats, recheado de composições complexas e inovadoras que levam o ouvinte até onde a imaginação de Zappa deixar.



Apostrophe (‘) (1974)

É um dos discos mais acessíveis e fáceis de ouvir em toda sua carreira, sendo uma boa porta de entrada para sua discografia. Composto de músicas curtas que misturam seu típico senso de humor com letras bizarras à melodias cativantes, permanece até hoje como o seu álbum mais bem sucedido comercialmente nos EUA. Jean-Luc Ponty e Jack Bruce engrandecem ainda mais a bolacha. 



One Size Fits All (1975)

Para muitos, esse figuraria fácil num Top 3 de toda discografia, possuindo uma de suas músicas mais representativas, Inca Roads. Ao longo do disco, Zappa não economiza nos solos e se supera como instrumentista e compositor. Tudo o que você deseja ouvir num belo álbum dele, encontrará aqui.



Zoot Allures (1976)

The Torture Never Stops já valeria a aquisição! Essa música gruda na cabeça e seus quase dez minutos poderiam ser transformados em vinte e ninguém iria reclamar.  Zappa sussurrando no seu ouvido enquanto toca guitarra, baixo e teclado não tem preço. Além dessa faixa, o disco ainda apresenta Black Napkins, de longe um de seus melhores solos, sendo gravado originalmente ao vivo em Osaka, Japão, naquele mesmo ano e foi editada  para o álbum de estúdio.



Zappa In New York (1978)

Essencial para entender toda a loucura que era uma apresentação ao vivo do gênio. Trata-se de uma compilação de shows realizados em Nova Iorque no final de 1976 que capturam com maestria toda a genialidade musical e o humor de Frank Zappa em cima do palco.




Joe`s Garage Act I, II & III (1979)

Excelente ópera-rock lançada originalmente separada num disco simples (Act I) e um duplo (Act II & III), que foi remasterizada e relançada num box triplo em 1987. Com exceção de Watermelon In Easter Hay, outra grande atuação do mestre, todas os solos de guitarra foram gravados originalmente ao vivo e editados com overdubs no estúdio.



You Can’t Do That On Stage Anymore, Vol. 2 (1988)

O melhor da série de seis discos You Can’t Do That On Stage Anymore, esse segundo volume registra uma performance ao vivo em 22 de Setembro de 1974 em Helsinki, Finlândia. O mais interessante é perceber como os andamentos das músicas ficaram ainda mais rápidos quando comparados ao Roxy & Elsewhere, outro ao vivo lançado no mesmo ano desse show em Helsinki, resultado de muita estrada nas costas dessa formação clássica que o acompanhava na época.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Classic Albums: A história por trás de Pronounced Leh-Nérd'Skin-Nérd




Al Kooper, experiente e respeitável produtor, compositor e parceiro de Bob Dylan, Stephen Stills, entre outros, definitivamente mudou para sempre a história dos rapazes de Jacksonville, Flórida.  Em 1972, o Lynyrd Skynyrd tocava em qualquer espelunca que oferecesse um oportunidade para eles se apresentarem. Graças ao empresário Alan Walden, irmão de Phil Walden e co-proprietário da Capricorn Records, eles conseguiram uma temporada de seis datas no Funochio`s, o bar mais barra pesada de Atlanta, onde o vocalista Ronnie Van Zant relatou que ocorriam no mínimo duas brigas por noite e pelo menos um tiroteio por semana. Mas eles não tinham escolha: “Não estávamos atrás de confusão, mas você tinha que entrar numa briga se quisesse sair de lá vivo. Depois que tocávamos no Funochio’s, voltávamos para Florida para ensaiarmos um novo show para a próxima vez em que nos chamássemos por lá. Alguns membros da banda tinham empregos de meio período, como entregador de flores, por exemplo, só para continuarmos os ensaios. Todos saímos da escola para nos tornarmos profissionais, então sabíamos que não importava o quão difícil fosse, deveríamos insistir para que desse certo, caso contrário não seríamos nada mais que colhedores de algodão”, explica Ronnie.

Al Kooper
É nessa pequena temporada no Funochio’s que Al Kooper entra em cena. O produtor estava em Atlanta trabalhando na gravação de músicas para sua banda de apoio na época, Frankie and Johnny. No tempo livre, Kooper resolveu visitar o bar de um amigo de infância e lá viu o Lynyrd pela primeira vez em cima do palco e relembra: “Na primeira noite curti I Ain`t the One, na segunda adorei Gimme Three Steps e lá pela quarta estava tocando no palco com eles. Na quinta ofereci o contrato da gravadora.”.

Na época, Al já tinha convencido os executivos da MCA a bancarem a Sounds Of The South, sua gravadora e mais nova empreitada que tinha como objetivo competir com a Capricorn Records e lançar todas aquelas bandas maravilhosas que ele assistia ao vivo pelo sul dos EUA. Na visão de Kooper, o Lynyrd era o seu Allman Brothers, uma joia na coroa do Southern Rock. A banda, que não tinha nada a perder, aceitou o acordo.

Enquanto faziam os ajustes do contrato, o baixista Leon Wilkeson, que tinha 20 anos e fazia parte do grupo há seis meses, resolveu pular fora do barco. “Eu saí porque tinha uma ideia assombrosa sobre ter fama, ser reconhecido. Eu senti que não estava preparado para o sucesso.”, explicou Leon.

Para ocupar o posto de baixista, Ronnie procurou Ed King, guitarrista do Strawbery Alarm Clock, com quem havia feito uma turnê conjunta em 1970 pela Flórida. Ed havia ficado impressionado com o Lynyrd e disse ao vocalista que caso sobrasse uma vaga, que o chamasse imediantamente para preenchê-la. Depois de muita procura, Ed foi encontrado tocando numa banda de bar em Greenville, Carolina do Norte. Com a formação completa, rumaram para Green Cove Springs, cidade próxima a Jacksonville onde tinham uma pequena cabine de ensaio apelidada “Hell House” devido ao calor infernal que fazia lá dentro. Ali eles ficaram ensaiando doze horas por dia durante três meses.

Em março de 1973, a banda finalmente assinou o contrato com a Sounds Of The South Records e receberam um adiantamento de nove mil dólares em notas de cem, que utilizaram para comprar novos equipamentos. As gravações começaram no dia 27 daquele mês e na semana seguinte seis músicas já estavam prontas, sendo que as bases foram registradas em no máximo dois takes. “Todos sabiam suas partes, batida por batida, nota por nota, de olhos fechados, de trás para frente. Era como respirar, de tantos ensaios que fizemos.”, lembra o baterista Bob Burns.

A relação entre produtor e banda havia se tornado muito íntima desde aquela jam que fizeram no Funochio’s. Kooper, empolgado com as gravações, passou a opinar, compor e modificar os arranjos, como fez em I Ain’t The One e Gimme Tree Steps, além de tocar mellotron em Tuesday’s Gone e mandolin em Mississipi Kid. O Roosevelt Gook, que aparece como um dos baixistas nos créditos, na verdade é o próprio produtor, que assinou o disco sob um pseudônimo.

As letras traziam os músicos para perto dos fãs, retratando temas presentes no dia-a-dia de um cidadão comum. Musicalmente,  sua maior influência, além da óbvia música sulista, era a segunda geração do rock inglês, declaradamente o Free como principal inspiração. Essa combinação entre country e rock os aproximava muito mais do Southern Rock do que o Allman Brothers, por exemplo, de raízes blueseiras com pitadas de jazz. Vant Zant disse que em 1972 Gregg Allman chegou para ele perguntou “Você é o cara que está tentando me imitar?”. Talvez pelo fato de que Zant casou-se com Judy, uma ex-namorada de Gregg, fato é que a competição entre eles e suas respectivas bandas sempre existiu. Porém, qualquer um que ouvia as duas notava a diferença. O ABB veio antes, mas foi o Lynyrd que carregou a bandeira sulista mundo afora.

O ápice do disco era, sem dúvida, Free Bird. Relatando o fim de um relacionamento ao longo de seus dez minutos, possui um dos solos de guitarra mais marcantes da história, registrando o duelo entre Gary Rossington e Allen Collins de maneira inspirada e brilhante. A MCA insistiu, em vão, que eles fizessem uma versão de três minutos para ser lançada como single. Gary relembra: “Dissemos ‘Não nos importamos, essa música detona ao vivo, vocês podem escolher outras para a rádio’”. Recentemente, a canção foi resgatada no terceiro volume da série de jogos Rock Band como sendo a mais difícil de ser executada na guitarra, apresentando o clássico para as novas gerações.

Outra faixa que se destacava era a tocante Simple Man. Num dia qualquer, Ronnie estava em seu apartamento acompanhado de Gary Rossington, relembrando histórias de sua avó que havia acabado de falecer. O guitarrista começou a dedilhar seu violão e ambos, pensando em suas mães e avós, foram compondo uma letra baseada na ideia de uma mãe que dá conselhos ao filho, ensinando-lhe valores como a fé, humildade, amor e desapego material. Impossível não se emocionar com sua letra e melodia inspiradas pela sabedoria materna.

Leon Wilkeson, vendo que não poderia deixar a oportunidade passar em frente aos seus olhos, decidiu voltar para a banda ainda em tempo de aparecer na foto da capa, e então o Lynyrd formou o trio de guitarras mais clássico de toda a história, cada um soando distintamente, com Ed King e sua Stratocaster preenchendo o espaço deixado pela Les Paul de Rossington e pela Gibson Firebird de Allen Collins. Sustentados pela cozinha precisa de Wilkeson e Robert Burns, o tecladista Billy Powel completava a formação.

Antes do disco ser lançado, Kooper convidou executivos de grandes gravadoras, dj’s, apresentadores de rádio, críticos, além de Marc Bolan do T. Rex e todo o pessoal da MCA para a grande festa de abertura da Sounds Of The South no Richard’s, em Atlanta, num domingo, 29 de Julho de 1973. Nessa ocasião, o Lynyrd, prata da casa, abriu o show com uma nova música chamada Working for MCA, em homenagem à gravadora que os contratou e que foi incluída no próximo álbum, Second Helping.

Pronounced’Leh-Nérd’Skin-Nérd, chegou às lojas em 13 de Agosto de 1973. O título ensinava a todos como pronunciar corretamente o nome da banda, já que o mesmo ficaria famoso mundialmente pouco tempo depois. Free Bird, rejeitada como single pela gravadora, tornou-se a canção mais tocada nas FMs do país em sua versão completa e o disco vendeu mais de 100.000 cópias logo de cara, com críticas positivas aparecendo em toda imprensa musical. 

Antes de todo o sucesso, a banda foi convidada pelo The Who para abrirem a turnê que fariam pela América do Norte promovendo o disco Quadrophenia. Todos ficaram surpresos e alegres com o convite, já que teriam a oportunidade de tocar diante de 20.000 pessoas numa única noite, nas maiores casas norte-americanas. A primeira data aconteceu no Cow Palace, em São Francisco e o começo não foi dos mais animadores. A plateia começou a arremessar moedas na desconhecida banda assim que eles subiram no palco. Porém, a mesma audiência pediu bis no final do show. O empresário do The Who na época, Peter Rudge, disse: “Nenhuma banda que já abriu para o Who tinha voltado ao palco para um encore”. Pouco tempo depois, Rudge tornou-se empresário do Lynyrd. Bill Curbishley, outro empresário da banda inglesa, também se espantou com os americanos: “Eles queriam ser mais loucos que Keith Moon. Queriam ser melhores e maiores que o The Who em tudo. Eles já eram loucos naturalmente, mas esse encontro com Who acendeu a chama. Isso também deu motivação e direção eles.”. Que estreia!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Classic Albums - Allman Brothers: A história por trás de At Fillmore East






Em 1971, o The Allman Brothers Band enfrentava dificuldades para obter reconhecimento e sucesso comercial. Embora tivessem uma boa base de seguidores, as vendas dos dois primeiros discos de estúdio não iam nada bem. O autointitulado debut de 1969 tinha vendido menos de 35.000 cópias e o segundo, Idlewild South, saiu-se um pouco melhor, contendo dois singles: Midnight Rider e Revival.

O que os motivava eram os fãs, que iam à loucura nas performances ao vivo contagiados pela mistura blues, jazz, rock e country que tocavam até alguém tirar  o fio da tomada.  Butch Trucks, baterista do ABB, descreve o som daquela época: “Pegamos o que o Cream e o Grateful Dead faziam e adicionamos John Coltrane e Herbie Hancock a essa mistura. Dessa forma, chegamos a lugares  em que ninguém nunca havia imaginado. Quando ouço alguém nos descrevendo como Southern Rock fico irritado.”. Realmente, era muito mais que isso.

Dessa forma, surgiu uma luz na cabeça dos músicos e empresários, concordando que a única maneira de retratar a  essência do Allman Brothers seria colocando um disco ao vivo no mercado. A escolha da casa de show para gravação não poderia ser mais óbvia: o Fillmore East, do promotor e amigo Bill Graham, em Nova Iorque, cidade muito querida por eles até hoje. “A plateia de Nova Iorque sempre foi excelente,” lembra o guitarrista Dickey Betts “mas o que fazia o Fillmore ser tão especial era Bill Graham. Ele foi o melhor promotor que o rock já teve e dava para sentir sua influência em cada canto do Fillmore.”. Além do Fillmore East, Graham também era proprietário da lendária casa Fillmore West em São Franciso, onde promoveu datas lendárias com Santana, Creendence Clearwater Revival, Janis Joplin, entre muitos outros. Apenas três meses depois do show do ABB, a casa da costa leste foi fechada. Precisa dizer quem Graham convidou para tocar no dia de encerramento?

A banda foi agendada para três noites, 11, 12 e 13 de Maço de 1971, sendo escalada entre Elvin Bishop e Johnny Winter, que fechava a festa. Um estúdio móvel de 16 pistas foi instalado do outro lado da rua com o produtor Tom Dowd e sua pequena equipe dentro. Dowd, responsável por inúmeros discos do ABB e de nomes como John Coltrane, Ray Charles, Cream, Lynyrd Skynyrd comentou: “O álbum capturou o momento de glória da banda. A música dos Allman’s sempre teve um swing único dentro do rock. Eles tem uma levada de jazz mesmo quando tocam algo tangenciando o blues ou mesmo um rock pesado. Nunca foram estáticos, sempre tocaram para frente e com muito groove.”.

Tudo ocorria muito bem até que banda convidou o saxofonista “Juice” Carter e o gaitista Thom Doucette para participarem de muitas músicas na primeira noite. “Um deles me perguntou se eu poderia microfonar um sax e eu achei que ele estava brincando.”, lembra Dowd. “Eles começaram a tocar e o sax foi encobrindo todos os instrumentos, tornando as músicas inaudíveis. Durante o intervalo eu corri até Duane e disse ‘O saxofonista tem que sair fora’, então ele respondeu ‘Mas o cara está detonando!’, foi quando lamentei francamente ‘Duane, acredite em mim, essa não é a hora para testarmos isso’. Depois ele me perguntou se poderia manter o gaitista e eu disse que tudo bem, sabendo que seria possível tirá-lo ou diminuir seu volume se fosse necessário.”.

Sem o sax e com a gaita sendo cortada de várias músicas (ninguém se lembra exatamente de quais), Doucette trouxe um toque especial para You Don`t Love Me e Done Somebody Wrong. Após cada show, banda e Dowd corriam para o estúdio da Atlantic Records para ouvir o que havia sido registrado, assim eles saberiam o que melhorar ou tirar na noite seguinte.

A seção rítmica contando com dois bateristas, Jai Johanny Johanson e Butch Trucks, adicionadas ao groove solto e violento do baixista Berry Oakley, mais o órgão/piano de Gregg Allman só ficaria perfeita quando entrelaçada pela dupla mágica composta pelas guitarras de Duane Allman e Dickey Betts. Gregg disse que em 1970 eles haviam feito 306 shows, sendo que os dias em que não tocavam eram gastos viajando de uma cidade para outra, indicando o auge da sintonia entre todos que podemos ouvir nos sulcos de At Fillmore East.

Com tudo que foi registrado nos dias 12 e 13, os Brothers tinham material suficiente para lançar um disco duplo ao vivo e preencher mais da metade do próximo álbum, Eat a Peach, incluindo a épica Mountain Jam e 33 minutos que, pasmem, foi tocada logo após a versão de 23 minutos de Whipping Post. Na verdade, não fosse o trágico acidente que vitimaria Duane Allman apenas alguns meses depois,  Eat a Peach seria um disco simples e sem as faixas retiradas das sobras do Fillmore, conforme Trucks revelou anos mais tarde.

Alguns meses depois dos shows em Nova Iorque, a banda estava nos estúdios da Capricorn Records em Macon, Georgia, quando ficou sabendo que o álbum estava pronto e deveriam escolher a capa imediatamente. “Nós decidimos fazer porque a Atlantic escolhia capas horríveis na época. Nós queríamos que ela fosse direta e sem frescuras, do jeito que a banda era. Então alguém disse ‘Vamos logo tirar uma foto como se estivéssemos nos bastidores esperando para entrar num palco.’” Dessa ideia simples surgiu umas das fotos mais representativas da história do Rock.

O fotógrafo Jim Marshall foi chamado e clicou o grupo em apoiado nos cases de seus equipamentos fora do estúdio em Macon. Para a contracapa, foi tirada uma foto com os roadies no lugar da banda tomando umas cervejas da marca Plabst Blue Ribbon oferecidas por Jim em recompensa pelo esforço por terem carregado todo o equipamento para lado de fora só para a fotografia. “Foi ideia do meu irmão. A equipe sempre teve um papel muito especial para nós.”, explica Gregg.

Contracapa com a equipe da banda tomando umas cervejas


É de se espantar que um LP duplo contenha apenas sete faixas (como Made in Japan do Deep Purple), sendo que duas delas, You Don’t Love Me e Whipping Post ocupam um lado inteiro de um disco e In Memory of Elizabeth Reed passa dos 13 minutos. Não foi fácil convencer os executivos da Atlantic sobre viabilidade comercial de um álbum com essa configuração. Depois de muita conversa, Phil Walden, proprietário da Capricorn, convenceu os executivos da major: “A Atlantic/Atco rejeitou a ideia de lançar um duplo ao vivo. Jerry Wexler (N.T Executivo da Atlantic) achava ridículo preservar todas aquelas jams. Explicamos para ele que o Allman Brothers era uma banda do povo e que a única coisa que importava era tocar, não ficar trancado num estúdio gravando como eles queriam.”. Graças à insistência de Walden, hoje podemos ouvir o disco que cravou o conceito de Jam Band.

Vendido por um preço de até três dólares abaixo do mercado para um LP duplo, o merecido sucesso chegou. Lançado em Julho daquele ano, em Outubro o At Fillmore East já era disco de ouro, com direito a uma resenha da revista Rolling Stone que dizia, com todas as letras, que os Allman's eram a “the best damm rock and roll band”  no país.

A riqueza e a fama pegou todos de surpresa, assim como o trágico acidente que levou “Skydog”, rei do slide guitar, daqui para melhor. Duane foi morto num acidente de motocicleta em 29 de Outubro, em Macon, durante uma pausa no meio das gravações de Eat a Peach. Emocionado, Gregg relembrou durante uma entrevista: “Na época eu pensei ‘Meu irmão não foi recompensado porque não teve tempo de colher os frutos que plantou’. Senti isso durante anos, mas aos poucos percebi que ele deixou um grande legado por ter morrido aos 24 anos. Muito disso vem do Fillmore. Eu ainda ouço o disco e fico maravilhado com o frescor dos seus licks e com o belíssimo timbre que possuía. Ele era único, assim como Oakley. (N.T: O baixista Berry Oakley morreu num acidente de moto apenas um ano após a partida de Duane) A oportunidade de nós seis termos nos encontrado e formado uma banda é inacreditável.”.

Só nos resta o prazer de colocarmos o Fillmore na agulha e flutuarmos, assim eles faziam no palco.

Foto da mesma sessão feita para a capa, com
a banda num disposição diferente


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Resenha de Livro: O Reino Sangrento do Slayer




Chegou ao mercado brasileiro no final do ano passado, pela editora Edições Ideal,  a biografia “O Reino Sangrento do Slayer”, contando a trajetória da banda mais pesada e polêmica da história do Thrash Metal. O autor é o renomado Joel McIver, que também assinou biografias de nomes de peso como Metallica, Black Sabbath, Sex Pistols, entre outros. O prefácio ficou por conta dos pais do ressurgimento do Crossover nos anos 2000, o Municipal Waste, e em terra brasilis, a honra coube ao vocalista do Zumbis do Espaço, Tauil.

Como o próprio autor da obra já indica na introdução, o livro dá prioridade à carreira do grupo do meio para frente, embora o início da vida particular de cada integrante, bem como os famosos perrengues sofridos por qualquer banda no começo de carreira não passem despercebidos. 

Os capítulos estão divididos pelos nomes dos álbuns lançados e por períodos dos anos, o que facilita a busca por informações pontuais.  Ao longo de todo o livro foram incluídas centenas de citações dos músicos, a maioria delas feitas ao próprio autor, o que demonstra a credibilidade do mesmo e prova a proximidade que manteve com eles ao longo dos anos.

Algo que me agradou muito na leitura foi a posição profissional que McIver adotou em relação à obra da banda, distanciando-se do prisma de um fã que baba ovo para tudo que seu artista favorito lança, como se lê em algumas outras biografias. Se por um lado o autor exalta os clássicos Reign in Blood e Divine Intervation, por outro comenta sobre a infantilidade das letras em Show No Mercy, as pisadas na bola cometidas em Diabolus in Musica, além de meter o pau nos covers gravados ao longo da carreira, entre outros.

Como o livro foi lançado originalmente em 2008,  World Painted Blood e os shows do Big 4 não são relatados nessas páginas. Existem alguns erros de tradução perceptíveis ao decorrer da leitura, mas que não afetam na qualidade de um modo geral. Conta ainda com dezesseis páginas recheadas de fotografias raras em preto e branco que registram desde os shows amadores do início da década de 80, passando pelo marco da amizade que tinham com o Pantera, até fotos tiradas em 2007.

Embora o autor tenha feito todos os esforços para que essa fosse uma biografia oficial, não foi o que conseguiu. Assim como ele, aguardo por um lançamento feito sob a tutela da banda. Enquanto isso, aproveite a leitura e revisite todos os discos em alto e bom som!

“Slayer? São fodas!” – Tony Foresta, vocalista do Municipal Waste.